sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

E quem sou eu pra dizer o contrário



Mudando de assunto:

- Suponho que o Senhor estará feliz - Disse Caim aos anjos - Ganhou a aposta contra satã e, apesar de tudo quanto está a sofrer, Jó não o renegou. Todos sabíamos que não o faria. Também o Senhor, imagino.
- O Senhor primeiro que todos.
- Isso quer dizer que ele ganhou a aposta porque tinha a certeza de que ia ganhar.
- De certo modo, sim.
- Portanto, tudo ficou como estava, neste momento o senhor não sabe mais de Jó do que aquilo que sabia antes.
- Assim é.
- Então, se é assim, expliquem-me por que está Jó leproso, coberto de chagas purulentas, sem filhos, arruinado.
- O senhor arranjará mandeiras de o compensar.
- Russuscitará os dez filhos, levantará as paredes, fará regressar os animais que não foram mortos? - perguntou Caim.
- Isso não sabemos.
- E o que fará o senhor à Satã, que tão mau uso, pelos vistos, parece ter feito da autorização que lhe foi dada.
- Provavelmente nada.
- Como nada? - perguntou Caim escandalizado - Mesmo que os escravos não contem para as estatísticas, há muita outra gente morta, e ouço que provavelmente o senhor não irá fazer nada.
- No céu as coisas sempre foram assim, não é nossa culpa.
- Sim, quando numa assembléia de seres celestes está presente Satã, há qualquer coisa que o simples mortal não entende.

A conversa ficou por ali, os anjos foram-se embora e Caim começou a pensar que teria de encontrar um caminho mais digno para sua vida.

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-Não sabes a força que têm os anjos, com um só dedo levantariam uma montanha, o que me vale é serem tão disciplinados, não fosse isso e já teriam organizado um complô pra me deporem.
- Como satã? - disse Caim.
- Sim, como satã, mas a este já lhe encontrei a maneira de o trazer contente, de vez em quando deixo-lhe uma vítima nas mãos para que se entretenha, e isso lhe basta.
- Tal como fizeste a Jó, que não ousou amaldiçoar-te, mas que leva no coração toda a amargura do mundo.
- Que sabes tu do coração de Jó?
- Nada, mas sei tudo do meu e alguma coisa do teu - Respondeu Caim.
- Não creio, os deuses são como poços sem fundo, se te debruçares neles nem mesmo a tua imagem conseguirás ver
- Com o tempo todos os poços acabam por secar, a tua hora também há de chegar.
O Senhor não respondeu, mas olhou fixamente Caim e disse:
- O teu sinal na testa está maior, parece um sol negro a levantar-se do horizonte dos olhos.
- Bravo. - exclamou Caim, batendo palmas - Não sabia que fosses dado à poesia.
- È o que digo, não sabes nada de mim.
Com esta magoada declaração, Deus afastou-se e, mais discretamente que à chegada, sumiu-se noutra dimensão.

Retirado de Caim, José Saramago.

Um comentário:

Dorfs disse...

huhahauhauhaha gostei dos quadrinhos xD